Uma passagem entre dois territórios
A história de Passo de Torres está diretamente relacionada ao Rio Mampituba, curso d’água que atualmente marca a divisa entre Santa Catarina e Rio Grande do Sul e separa as áreas urbanas de Passo de Torres e Torres.
Muito antes da formação das comunidades atuais, populações indígenas já ocupavam áreas do litoral e do Vale do Mampituba. Pesquisas arqueológicas e históricas registram diferentes ocupações pré-coloniais na região, incluindo a presença Guarani.
Com o avanço da ocupação colonial e o estabelecimento de rotas pelo litoral, o Mampituba tornou-se também um ponto de passagem para quem circulava entre os territórios que atualmente pertencem aos dois estados.
É dessa função que teria surgido o próprio nome Passo de Torres.
Segundo o histórico municipal, pessoas e mercadorias que vinham de Laguna em direção ao território de São Pedro do Rio Grande precisavam atravessar diferentes cursos d’água. Os locais utilizados para essas travessias eram conhecidos como passos.
A expressão Passo de Torres teria sido utilizada para identificar a região da passagem pelo Mampituba, provavelmente abrangendo originalmente áreas das duas margens do rio, próximas à foz.
A travessia aparece inclusive em um registro produzido no início do século XIX. Em 1827, o artista francês Jean-Baptiste Debret retratou uma passagem pelo Mampituba durante sua viagem pelo Sul do Brasil.
O registro ajuda a mostrar que a travessia do rio já fazia parte das rotas de circulação muito antes da formação administrativa do atual município.
O Arraial de Mampituba
A ocupação que daria origem à comunidade atual foi se consolidando ao longo do século XIX.
Segundo o histórico municipal, quando o distrito de Passo do Sertão — atual São João do Sul — foi criado em 1891, já havia referência ao Arraial de Mampituba, habitado por algumas famílias na área que atualmente pertence a Passo de Torres.
Entre os moradores antigos citados pelas fontes aparecem Manoel Maciel, Manoel Neto, José Ignácio, José Gonçalves dos Santos, Osório Hespanhol, Antônio Lira e Manoel Laurentino.
O histórico relaciona essas famílias principalmente a uma origem luso-açoriana.
A localização junto ao Mampituba fazia com que a travessia permanecesse presente no cotidiano da comunidade. Antes da existência de estruturas maiores, a passagem entre as margens era realizada por pequenas embarcações.
Essa relação com o rio acabaria se tornando uma das características mais permanentes da formação de Passo de Torres.
Dos pequenos barcos à balsa
Por volta de 1920, a travessia ganhou uma nova estrutura.
Uma balsa de madeira movida a remo passou a transportar pessoas e mercadorias pelo Mampituba, facilitando a ligação com Torres.
Alguns anos depois, essa primeira estrutura foi substituída por uma balsa conhecida como “pega-mão”, movimentada manualmente pelos balseiros de uma margem à outra.
A balsa tornou-se parte da rotina de quem precisava cruzar o rio e reforçou uma relação que ultrapassava os limites administrativos entre Santa Catarina e Rio Grande do Sul.
Enquanto o Mampituba estabelecia uma divisa territorial, a travessia mantinha conectadas as comunidades de suas margens.
A comunidade se organiza
Outro momento importante ocorreu na década de 1940.
Em 22 de março de 1944, uma data relacionada à formação da estrutura religiosa local passou a marcar a história da comunidade. O histórico municipal associa esse momento à consolidação do núcleo que posteriormente daria origem à cidade de Passo de Torres.
A organização da comunidade acontecia enquanto a ligação cotidiana com a margem gaúcha permanecia dependente das travessias pelo Mampituba.
Duas décadas depois, uma nova estrutura modificaria essa relação.
Uma ponte para atravessar o Mampituba
Em 24 de outubro de 1964, foi inaugurada a primeira ponte pênsil para pedestres entre Passo de Torres e Torres.
A estrutura foi construída durante a administração de Luviano Maciel, então prefeito de São João do Sul, município ao qual Passo de Torres pertencia.
A ponte não eliminou a necessidade da balsa, já que sua utilização era destinada aos pedestres. As duas formas de travessia passaram a fazer parte da ligação entre as margens.
Em 1985, ambas seriam renovadas.
No dia 22 de janeiro daquele ano, a antiga balsa manual de madeira foi substituída por uma estrutura de ferro movimentada por motor. Segundo o histórico municipal, a nova embarcação tinha capacidade para transportar até 12 automóveis ou 50 toneladas.
Também em 1985, uma ação conjunta das prefeituras de São João do Sul e Torres resultou na construção de uma nova ponte pênsil, mais larga e apoiada em estruturas de alvenaria.
Ao longo de poucas décadas, a travessia que anteriormente dependia de pequenos barcos passou pela balsa a remo, pela balsa manual e pelas pontes destinadas aos pedestres.
Passo de Torres torna-se distrito
Enquanto a comunidade se desenvolvia junto ao Mampituba, sua organização administrativa também começou a mudar.
Em 18 de maio de 1964, a Lei Promulgada nº 964 criou o distrito de Passo de Torres, pertencente ao município de São João do Sul.
A legislação mostra que o novo distrito foi formado a partir de território desmembrado de Vila Conceição.
Seus limites acompanhavam elementos que continuam marcantes na geografia local: o Oceano Atlântico, o Rio Mampituba, a Lagoa de Sombrio e a Lagoa do Piritu estavam entre as referências utilizadas na delimitação.
A criação do distrito ocorreu poucos meses antes da inauguração da primeira ponte pênsil sobre o Mampituba.
Passo de Torres permaneceria como distrito de São João do Sul durante mais de duas décadas.
Entre o rio e o mar
A relação de Passo de Torres com o Mampituba não ficou restrita às travessias entre as duas margens. A proximidade com a foz também fez da pesca e da navegação elementos presentes na trajetória da comunidade.
Ao longo do século XX, diferentes intervenções foram realizadas na Barra do Rio Mampituba, modificando a configuração da foz e as condições de acesso entre o rio e o mar.
Entre essas transformações está a implantação dos molhes da Barra do Mampituba, estruturas construídas nas duas margens da desembocadura e que passaram a fazer parte da paisagem compartilhada por Passo de Torres e Torres.
As fontes consultadas apresentam referências cronológicas diferentes para as obras realizadas na barra, possivelmente relacionadas a etapas distintas das intervenções. Por isso, não é possível estabelecer, com segurança, uma única data para todo o processo de implantação dos molhes.
Com o passar do tempo, além de sua relação com a navegação e a pesca, os molhes também se consolidaram como ponto de visitação junto à foz do Mampituba, integrando a paisagem turística de Passo de Torres.
Assim, o mesmo rio que esteve ligado às antigas travessias continuou participando das transformações do município: primeiro como caminho entre as margens e, junto ao mar, como parte da atividade pesqueira, da paisagem e da relação de Passo de Torres com o litoral.
A emancipação de Passo de Torres
No início da década de 1990, uma nova mudança administrativa alterou a configuração territorial de São João do Sul.
Em 26 de setembro de 1991, a Lei Estadual nº 8.350 criou o município de Passo de Torres, desmembrado de São João do Sul.
O território estabelecido pela legislação não correspondia somente ao antigo distrito de Passo de Torres. A delimitação do novo município incorporou também uma área que pertencia ao distrito de Vila Conceição, relacionada à região do banhado da Lagoa do Piritu.
A emancipação encerrou o período iniciado em 1964, quando Passo de Torres havia se tornado distrito de São João do Sul, abrindo uma nova etapa de sua organização administrativa.
Uma cidade formada pela travessia
Poucos elementos atravessam tantos períodos da história local quanto o próprio Mampituba.
Antes de existir Passo de Torres como município, já existia a passagem pelo rio.
Ela aparece nas antigas rotas de circulação pelo litoral, está relacionada à origem do nome da localidade e permaneceu presente na formação da comunidade que se estabeleceu junto à margem catarinense.
Pequenas embarcações deram lugar à balsa. Depois vieram as pontes pênseis e novas estruturas de travessia. Ao mesmo tempo, o Arraial de Mampituba transformou-se em comunidade, a comunidade tornou-se distrito e, finalmente, Passo de Torres conquistou sua emancipação.
Junto à foz, os molhes também passaram a integrar uma paisagem marcada pelo encontro entre o rio e o Oceano Atlântico.
O Mampituba estabelece a divisa entre Santa Catarina e Rio Grande do Sul, mas historicamente também ajudou a conectar suas duas margens.
É justamente nessa relação entre passagem e fronteira, entre rio e mar, que se encontra um dos principais fios da história de Passo de Torres.
Linha do tempo de Passo de Torres
1827 — Jean-Baptiste Debret produz um registro da travessia do Mampituba durante sua passagem pelo Sul do Brasil.
1891 — Segundo o histórico municipal, já é mencionado o Arraial de Mampituba, habitado por algumas famílias na área do atual município.
Por volta de 1920 — Uma balsa de madeira movida a remo passa a facilitar a travessia do Rio Mampituba.
22 de março de 1944 — Data associada pelo histórico municipal à consolidação da estrutura da comunidade.
18 de maio de 1964 — É criado o distrito de Passo de Torres, pertencente a São João do Sul e formado a partir de território desmembrado de Vila Conceição.
24 de outubro de 1964 — É inaugurada a primeira ponte pênsil para pedestres sobre o Mampituba.
22 de janeiro de 1985 — A antiga balsa manual é substituída por uma balsa de ferro motorizada.
1985 — Uma nova ponte pênsil é construída em parceria entre São João do Sul e Torres.
26 de setembro de 1991 — A Lei Estadual nº 8.350 cria o município de Passo de Torres, desmembrado de São João do Sul.
Fontes consultadas
- Prefeitura de Passo de Torres — História do Município — base para informações sobre a origem do nome, Arraial de Mampituba, moradores antigos, travessia do rio, balsas, pontes e emancipação.
História de Passo de Torres — Prefeitura Municipal - IBGE — Histórico e formação administrativa de Passo de Torres — utilizado para conferir o histórico municipal e a evolução administrativa do distrito e do município.
Histórico de Passo de Torres — IBGE - Assembleia Legislativa do Estado de Santa Catarina — Lei Promulgada nº 964, de 18 de maio de 1964 — criação do distrito de Passo de Torres, desmembrado de Vila Conceição.
Lei Promulgada nº 964/1964 — ALESC - Assembleia Legislativa do Estado de Santa Catarina — Lei Estadual nº 8.350, de 26 de setembro de 1991 — criação do município de Passo de Torres e definição de seus limites territoriais.
Lei Estadual nº 8.350/1991 — ALESC - Prefeitura de Torres — Linha do Tempo da História de Torres — utilizada para contextualizar as antigas rotas de circulação pelo litoral e o registro da travessia do Mampituba atribuído a Jean-Baptiste Debret.
Linha do tempo histórica de Torres - Prefeitura de Torres — Rio Mampituba — consultada para informações relacionadas às transformações da foz e aos molhes.
Rio Mampituba — Prefeitura de Torres - Prefeitura de Passo de Torres — material sobre os molhes da Barra do Rio Mampituba — consultado para contextualizar a importância das estruturas para o município e a foz.
Molhes da Barra do Rio Mampituba — Prefeitura de Passo de Torres - Estudo sobre caminhos pré-coloniais na região de Torres e Vale do Mampituba — utilizado para contextualizar as ocupações indígenas anteriores à formação das comunidades atuais.
Estudo disponível na Revista Cadernos do CEOM - FARIAS, Vilson Francisco de. Dos Açores ao Brasil Meridional: uma viagem no tempo — 500 anos, litoral catarinense: um livro para o ensino fundamental. — obra indicada como referência bibliográfica pelo histórico municipal de Passo de Torres.


