Antes do município, os caminhos
Muito antes de Ermo se tornar município, seu território fazia parte dos caminhos que conectavam diferentes pontos do Vale do Araranguá e as áreas próximas à Serra Geral.
A posição entre Araranguá e Turvo, com ligações que alcançavam também localidades em direção a Timbé do Sul, Jacinto Machado e Praia Grande, colocava o território nas rotas percorridas por moradores, comerciantes e tropeiros.
As tropas transportavam produtos entre diferentes regiões e faziam paradas durante a viagem. Memórias recolhidas entre antigos moradores registram tropeiros chegando ao Morro do Ermo, onde encontravam locais para pernoitar antes de seguir viagem.
Essa circulação também proporcionava trocas com as famílias que viviam pelo caminho. Produtos trazidos de outras regiões, como charque, queijo e pinhão, eram negociados ou trocados por itens produzidos localmente, entre eles açúcar, fumo em corda, melado e farinha de mandioca.
Os caminhos, portanto, não serviam apenas para atravessar o território. Eles colocavam seus moradores em contato com outras localidades e participavam da economia de uma região que ainda possuía poucas estradas.
Foi junto a esses caminhos que o povoamento de Ermo começou a ganhar forma.
Entre as várzeas e o Morro do Ermo
As fontes sobre o município relacionam o início de seu povoamento ao processo mais amplo de ocupação do Vale do Araranguá, ocorrido durante a segunda metade do século XIX.
Inicialmente aparecem famílias de origem açoriana. Nas primeiras décadas do século XX, novas famílias chegaram, incluindo descendentes de italianos provenientes de outras áreas do Sul catarinense.
Entre os primeiros moradores citados pelas fontes estão Pedro Valente Lourenço, Xisto Tomazi, Pedro Rocha, Josué Votri, Luiz Abatti e Pedro Simon.
A escolha dos locais para estabelecer as propriedades também estava relacionada às características da paisagem.
As várzeas eram atingidas por alagamentos, enquanto áreas mais elevadas ofereciam outras condições de ocupação. A pesquisa histórica sobre o município identifica dois núcleos nas memórias do povoamento: o Morro do Ermo, situado em área elevada, e o chamado Ermo de Baixo.
As enchentes continuariam fazendo parte da relação dos moradores com o território ao longo das décadas. Entre os episódios preservados na memória local está a grande cheia de 1974, quando canoas foram utilizadas para retirar famílias das áreas atingidas.
De onde veio o nome Ermo?
A origem do nome é explicada por diferentes narrativas preservadas nas fontes e na memória local. Em comum, elas relacionam a palavra Ermo à percepção de um lugar distante ou de acesso difícil.
O histórico do IBGE registra que a denominação teria sido utilizada pelos moradores em razão das matas e várzeas alagadas, que dificultavam o acesso.
Outra versão, registrada por meio da história oral, relaciona o nome à área elevada do atual Morro do Ermo. Moradores de Araranguá que se deslocavam até aquele território para caçar teriam começado a se referir ao local como “ermo”, expressão associada a um lugar afastado.
Sem documentação que permita determinar qual narrativa deu efetivamente origem ao nome, as duas permanecem como registros da memória sobre a formação da localidade.
O que elas revelam em comum é uma característica daquele período: chegar até Ermo não era tão simples quanto seria posteriormente.
Paradoxalmente, aquele lugar considerado distante também se tornaria um importante ponto de passagem.
A agricultura e o trabalho transformam o povoado
As famílias que se estabeleceram no território encontraram na agricultura uma de suas principais formas de subsistência.
A disponibilidade de terras e as condições para o cultivo atraíram moradores provenientes de outras localidades. Aos poucos, propriedades foram abertas e diferentes atividades começaram a surgir ao redor da produção rural.
A madeira também teve importância nesse processo.
Um dos personagens associados a esse período é Pedro Simon, que chegou a Ermo vindo de Turvo Baixo por volta da década de 1920.
Sua trajetória ajuda a compreender como pequenas estruturas produtivas começaram a aparecer no povoado. A família trabalhava com serraria e, em Ermo, Simon utilizou a força da água para movimentar equipamentos ligados às atividades que desenvolvia.
As fontes registram uma atafona de milho, engenho de farinha e serraria, além do aproveitamento da energia produzida pela água.
A história de Simon é apenas um exemplo de uma transformação mais ampla que ocorria no povoado.
À agricultura começavam a se somar pequenas atividades industriais, comerciais e de prestação de serviços.
Um pequeno centro no encontro dos caminhos
Ao longo do século XX, Ermo desenvolveu uma diversidade de atividades maior do que o tamanho do povoado poderia sugerir.
As pesquisas históricas registram a existência, em diferentes momentos, de serrarias, engenhos, beneficiamento de arroz, fabricação de móveis, oficina mecânica, padaria, olaria, estabelecimentos comerciais e outras pequenas atividades.
Havia também espaços de convivência e entretenimento, incluindo salão de baile e cinema.
Parte desse movimento pode ser compreendida pela posição de Ermo nas antigas rotas regionais.
Enquanto determinados deslocamentos entre municípios e comunidades dependiam daqueles caminhos, pessoas e mercadorias circulavam pelo povoado.
O transporte também começava a mudar.
Por volta da metade do século XX, veículos passaram gradualmente a dividir espaço com cavalos, carros de bois e tropas que durante décadas haviam percorrido a região.
A abertura e melhoria das estradas modificariam profundamente essa dinâmica.
Ermo torna-se distrito
Em 11 de maio de 1956, a Lei Municipal nº 2 criou o distrito de Ermo, formado por áreas desmembradas dos distritos de Turvo e Jacinto Machado e subordinado ao município de Turvo.
A mudança reconhecia administrativamente uma comunidade que já havia desenvolvido atividades econômicas, espaços de convivência e uma vida própria ao longo das décadas anteriores.
Como distrito, Ermo permaneceria vinculado a Turvo por mais de três décadas.
Enquanto isso, mudanças na agricultura e nos transportes começavam a alterar a dinâmica da própria comunidade.
Quando os caminhos mudaram
A modernização dos transportes aproximou municípios e comunidades, mas também reorganizou os antigos fluxos de circulação.
A pavimentação da BR-101, concluída na região no início da década de 1970, criou novas possibilidades de deslocamento pelo Extremo Sul catarinense.
Com as novas ligações rodoviárias, trajetos que anteriormente favoreciam a passagem por Ermo deixaram de ter a mesma importância.
A transformação ocorreu paralelamente a outras mudanças econômicas e sociais.
A mecanização das lavouras reduziu a necessidade de mão de obra em determinadas atividades agrícolas, enquanto parte da população deixou o campo. Pequenos estabelecimentos comerciais e industriais também desapareceram ao longo das décadas.
Não foi uma única mudança que transformou Ermo. A reorganização das estradas, as novas formas de produção e as mudanças no meio rural fizeram parte de um processo que alterou o cotidiano da comunidade.
Administrativamente, porém, Ermo continuava ligado a Turvo.
No início dos anos 1990, ganhou força um novo movimento: a busca pela emancipação.
Um plebiscito diferente em 1993
Em 19 de setembro de 1993, a população participou do plebiscito sobre a emancipação de Ermo.
O histórico do IBGE e fontes municipais registram uma particularidade: a consulta teria sido o primeiro plebiscito computadorizado realizado na América do Sul.
Segundo essas mesmas fontes, 98% dos votos foram favoráveis à emancipação.
A informação sobre o pioneirismo continental é preservada nos históricos oficiais do município e do IBGE, embora as fontes consultadas não permitam verificar comparativamente todos os plebiscitos realizados anteriormente em outros países sul-americanos.
A consulta abriu caminho para a criação do município.
Ermo conquista a autonomia
Em 29 de dezembro de 1993, a Lei Estadual nº 9.402 criou oficialmente o município de Ermo, desmembrando seu território de Turvo.
A legislação estadual também permite esclarecer uma divergência encontrada em alguns registros históricos, que apresentam 1995 como ano da criação. A lei original da Assembleia Legislativa de Santa Catarina é datada de 29 de dezembro de 1993.
A criação legal, entretanto, não significou a instalação imediata da administração municipal.
Ermo ainda aguardaria as primeiras eleições municipais, realizadas em 3 de outubro de 1996.
Em 1º de janeiro de 1997, com o início da primeira administração, o município passou efetivamente a conduzir sua própria estrutura política e administrativa.
Mais de um século depois do período em que começou a se formar o povoamento daquele território, Ermo iniciava uma nova etapa de sua história.
Um lugar transformado pelos caminhos
A história de Ermo guarda uma relação particular com seus caminhos.
O território descrito nas memórias como distante e de difícil acesso tornou-se passagem para tropeiros, comerciantes e moradores que circulavam entre diferentes localidades do Extremo Sul.
Ao redor dessas rotas cresceram propriedades, pequenas atividades produtivas, comércio e espaços de convivência.
Depois, os próprios caminhos mudaram.
Novas estradas reorganizaram os deslocamentos regionais, a agricultura passou por transformações e atividades que haviam marcado o antigo povoado desapareceram ou deram lugar a outras.
Ermo também mudou.
De localidade rural tornou-se distrito de Turvo e, depois de décadas nessa condição, conquistou sua autonomia.
O município criado em 1993 é resultado dessa trajetória construída entre as várzeas e o Morro do Ermo, pela agricultura, pelo trabalho das famílias e pelos caminhos que durante gerações conectaram a comunidade ao restante do Extremo Sul.
Linha do tempo de Ermo
Segunda metade do século XIX — O povoamento do território começa a se desenvolver no contexto da ocupação do Vale do Araranguá.
Início do século XX — Novas famílias, entre elas descendentes de italianos provenientes de outras áreas do Sul catarinense, estabelecem-se na região.
Por volta da década de 1920 — Pedro Simon instala-se em Ermo e desenvolve atividades ligadas à serraria e ao aproveitamento da força da água.
Primeira metade do século XX — Ermo integra caminhos utilizados por tropeiros, comerciantes e moradores em deslocamentos pela região.
11 de maio de 1956 — A Lei Municipal nº 2 cria o distrito de Ermo, com áreas desmembradas dos distritos de Turvo e Jacinto Machado.
Início da década de 1970 — A pavimentação da BR-101 e outras transformações nos transportes contribuem para reorganizar os antigos fluxos regionais.
19 de setembro de 1993 — A população participa do plebiscito sobre a emancipação.
29 de dezembro de 1993 — A Lei Estadual nº 9.402 cria o município de Ermo, desmembrado de Turvo.
3 de outubro de 1996 — São realizadas as primeiras eleições municipais.
1º de janeiro de 1997 — Inicia-se a primeira administração e ocorre a instalação do município.
Fontes consultadas
- IBGE — Histórico de Ermo — utilizado para informações sobre povoamento, primeiros moradores, origem atribuída ao nome, atividades desenvolvidas por Pedro Simon, formação administrativa e processo de emancipação.
- SANTOS, Beatriz Parol dos. O mapeamento e a difusão histórica cultural e artística do município de Ermo do Estado de Santa Catarina. Ermo, 2005. — pesquisa baseada também em história oral, utilizada especialmente para reconstruir o povoamento, antigos caminhos, tropeirismo, enchentes, atividades econômicas e transformações ocorridas ao longo do século XX.
- Centro de Memória da Educação do Sul de Santa Catarina (CEMESSC/Unesc) — Histórico da EEB Pedro Simon — fonte complementar sobre a trajetória de Pedro Simon e o desenvolvimento da comunidade.
- SIMÃO, Karina Pescador Recco. Ermo Recontando sua História. 2006. — obra indicada entre as referências do material histórico preservado pelo CEMESSC.
- Assembleia Legislativa do Estado de Santa Catarina — Lei Estadual nº 9.402, de 29 de dezembro de 1993 — fonte primária utilizada para confirmar a criação do município e seu desmembramento de Turvo.
Consultar a Lei nº 9.402/1993 na ALESC - Estudos e registros históricos sobre a BR-101 em Santa Catarina — utilizados para conferir a cronologia da pavimentação da rodovia e contextualizar as mudanças nos fluxos regionais ocorridas no início da década de 1970.


