História de Morro Grande: dos caminhos da Serra Geral à formação das comunidades e do município

Entre rios, vales e as encostas da Serra Geral, diferentes grupos ocuparam e percorreram o território antes da formação das comunidades que, décadas mais tarde, conquistariam autonomia municipal.

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Arquivo: Prefeitura Municipal de Morro Grande.

Um território ocupado antes da formação de Morro Grande

A história do território onde hoje está Morro Grande começou muito antes da chegada das famílias que formariam as comunidades atuais.

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A proximidade com a Serra Geral, a presença de rios e os caminhos naturais entre as terras baixas do Sul catarinense e o planalto fizeram dessa região um espaço de circulação e ocupação em diferentes períodos.

Vestígios arqueológicos encontrados no território registram antigas ocupações humanas, enquanto fontes históricas e pesquisas mais recentes também apontam a presença dos Laklãnõ-Xokleng na região.

Entre os materiais encontrados estão pontas de projétil, machadinhas, raspadores e mãos de pilão. Parte desse patrimônio está preservada atualmente no Museu da Terra e da Cultura de Morro Grande.

A Serra Geral também foi atravessada por caminhos utilizados por tropeiros, conectando as terras baixas do Sul catarinense aos Campos de Cima da Serra.

Pesquisas sobre o tropeirismo regional identificam Morro Grande entre as áreas percorridas pelas tropas e relacionam a Serra do Pilão, na região do Cânion Realengo, a esses antigos deslocamentos. A comunidade de Nova Roma também aparece na memória desse período de circulação entre a serra e o litoral.

A ocupação que daria origem às comunidades contemporâneas de Morro Grande, porém, ganharia força no início do século XX.

Famílias chegam em busca de novas terras

Por volta de 1918, famílias de origem italiana começaram a se estabelecer no território.

Não se tratava, em sua maioria, de imigrantes chegando diretamente da Itália. Eram famílias e descendentes de italianos que já viviam em outros núcleos do Sul de Santa Catarina e se deslocavam em busca de novas terras e oportunidades.

As fontes locais registram famílias provenientes de áreas de Morro da Fumaça, Urussanga, Içara, Criciúma, Nova Veneza e Cocal do Sul.

Entre aquelas associadas ao início dessa ocupação aparecem as famílias Biff, Daniel, Dal Toé e Bitencourt. Posteriormente, outras se estabeleceram em diferentes pontos do território.

Esse movimento estava relacionado a um processo mais amplo de expansão das famílias de origem italiana pelo Sul catarinense. Descendentes dos imigrantes estabelecidos anteriormente em outras colônias avançavam para novas áreas onde poderiam formar propriedades e desenvolver principalmente a agricultura.

Foi nesse contexto que começaram a se consolidar as comunidades que formariam Morro Grande.

A paisagem também orientou a ocupação

O território encontrado pelas famílias apresentava características que influenciariam a maneira como propriedades e comunidades se desenvolveriam.

Morro Grande está situado junto às encostas da Serra Geral e é atravessado por diferentes cursos d’água, entre eles o Rio Manoel Alves.

Estudos sobre a paisagem cultural do município mostram a estreita relação estabelecida entre os moradores, os rios, as áreas cultiváveis e as formas do relevo. A ocupação não ocorreu de maneira independente da natureza: caminhos, moradias e áreas agrícolas foram sendo estabelecidos de acordo com as possibilidades oferecidas pelo território.

A própria explicação tradicional para o nome Morro Grande está relacionada a essa paisagem.

Segundo a narrativa preservada pelo município, os primeiros moradores teriam escolhido a denominação ao perceberem as grandes elevações que cercavam a região.

Sem documentação que permita determinar exatamente quando essa denominação começou a ser utilizada, a explicação permanece como parte da memória local sobre a origem do nome.

O trabalho constrói as comunidades rurais

A vida das primeiras famílias estava diretamente ligada à terra.

Era necessário estabelecer as propriedades, construir moradias e produzir aquilo que garantiria a subsistência das famílias.

A agricultura tornou-se uma das bases da formação econômica e social das comunidades. Milho, feijão, arroz e fumo, entre outros cultivos, fizeram parte dessa trajetória, enquanto a criação de animais também ganhou importância.

A exploração da madeira também fez parte da economia local, ao lado das atividades agrícolas.

Ao redor do trabalho no campo desenvolveram-se conhecimentos, ferramentas e estruturas características da vida rural. Engenhos, atafonas, ranchos, alambiques, carros de bois e outros elementos fizeram parte do cotidiano de diferentes gerações.

As comunidades foram se estruturando gradualmente.

Nova Roma, Rio do Meio, São Bento e outras localidades passaram a construir seus próprios espaços de convivência, religiosidade e organização comunitária.

Em vez de uma única povoação concentrada desde o início, Morro Grande foi se formando a partir dessa rede de comunidades espalhadas pelo território.

Uma herança cultural transmitida entre gerações

As famílias de origem italiana também deixaram marcas que ultrapassaram a agricultura.

Formas linguísticas relacionadas ao vêneto, trazidas por famílias originárias principalmente do Norte da Itália, permaneceram presentes na comunicação cotidiana de parte dos descendentes e se misturaram ao português ao longo das gerações.

A influência também aparece na gastronomia, na religiosidade, nas festas comunitárias e em práticas como a bocha e a mora.

Mais do que elementos isolados, esses costumes mostram como conhecimentos e formas de convivência foram transmitidos dentro das famílias e comunidades.

Parte desse patrimônio permanece registrada em objetos, fotografias e documentos preservados pelo Centro Cultural Pedro Dal Toé e pelo Museu da Terra e da Cultura de Morro Grande.

Enquanto as comunidades mantinham essas referências culturais, o território começava a adquirir também uma organização administrativa própria.

Morro Grande torna-se distrito

A criação do distrito ocorreu em um momento particular da reorganização territorial da região.

Em 1º de dezembro de 1961, a Lei nº 777 homologou resolução da Câmara Municipal de Turvo que criou o distrito de Morro Grande, desmembrando seu território do então distrito de Meleiro.

Naquele momento, Meleiro ainda integrava Turvo. Com sua emancipação, Morro Grande passou a fazer parte do novo município.

Essa sequência explica por que documentos históricos relacionados à criação do distrito fazem referência tanto a Turvo quanto a Meleiro.

Morro Grande permaneceria como distrito de Meleiro durante aproximadamente três décadas.

O reconhecimento administrativo representava uma nova etapa para um território que havia se desenvolvido essencialmente a partir de suas comunidades rurais.

A autonomia municipal, entretanto, ainda demoraria a chegar.

O movimento pela emancipação

Décadas depois da criação do distrito, ganhou força a proposta de transformar Morro Grande em município.

O movimento emancipacionista não ficou restrito às decisões administrativas.

Relatos preservados em pesquisas sobre a história local mostram que integrantes da comissão envolvida na mobilização percorreram as comunidades para conversar com os moradores, apresentando questões relacionadas à possível separação de Meleiro.

Era necessário discutir se Morro Grande tinha condições e se seus moradores desejavam seguir administrativamente por conta própria.

A mobilização conduziu a comunidade a um dos momentos decisivos de sua história.

O plebiscito de 1992

Em 15 de março de 1992, os moradores participaram do plebiscito sobre a emancipação de Morro Grande.

A consulta levou às urnas uma discussão que vinha sendo realizada junto às comunidades.

Após a consulta popular, o processo de emancipação seguiu para sua formalização.

Apenas quinze dias depois, em 30 de março de 1992, foi sancionada a Lei Estadual nº 8.559, criando oficialmente o município de Morro Grande e desmembrando seu território de Meleiro.

A criação legal representava uma mudança fundamental, mas ainda era necessário escolher os representantes responsáveis pela primeira administração municipal.

A primeira eleição de Morro Grande

A primeira eleição municipal ocorreu em 3 de outubro de 1992.

Foram eleitos Clélio Daniel Olivo para prefeito e Ivo Zuchinali para vice-prefeito, além dos nove vereadores que formariam a primeira legislatura municipal.

A posse ocorreu em 1º de janeiro de 1993.

A partir daquele momento, Morro Grande iniciou efetivamente sua trajetória administrativa independente.

O processo construído por meio da mobilização das comunidades, levado à consulta popular e posteriormente formalizado pela legislação chegava a uma nova etapa.

O antigo distrito de Meleiro passava a conduzir sua própria administração.

A terra permanece como ligação entre passado e presente

A emancipação alterou a organização administrativa, mas alguns elementos atravessaram praticamente toda a trajetória de Morro Grande.

Entre eles está a relação com o meio rural.

A agricultura continuou ocupando espaço importante na economia municipal, especialmente com a produção de arroz e fumo, enquanto a avicultura e outras atividades ligadas à criação de animais também ganharam relevância.

As técnicas mudaram, propriedades se modernizaram e novas atividades surgiram, mas a ligação com a terra permaneceu como uma característica marcante do município.

Também continuam presentes diferentes referências culturais construídas pelas comunidades ao longo de gerações.

É justamente essa continuidade que permite compreender Morro Grande para além da data de sua emancipação.

Dos caminhos da Serra Geral à formação do município

A criação do município em 1992 é um dos grandes marcos da história de Morro Grande, mas não representa seu começo.

Antes das famílias de origem italiana estabelecerem suas propriedades, outras populações já haviam ocupado aquele território. A Serra Geral também foi atravessada por caminhos que permitiram a circulação entre o planalto e as terras baixas.

A partir do início do século XX, novas famílias chegaram, estabeleceram propriedades e formaram comunidades rurais que cresceram ao longo das décadas.

Morro Grande tornou-se distrito, permaneceu ligado a Meleiro durante cerca de 30 anos e, depois de uma mobilização que chegou às comunidades e às urnas, conquistou sua autonomia.

Entre rios, vales e montanhas, diferentes gerações participaram dessa trajetória.

O município criado em 1992 foi resultado de uma história construída muito antes da emancipação, nas comunidades, propriedades e caminhos que ajudaram a ocupar e transformar o território de Morro Grande.

Linha do tempo de Morro Grande

Antes da colonização europeia — Vestígios arqueológicos registram antigas ocupações humanas no território. Pesquisas também apontam a presença dos Laklãnõ-Xokleng na região.

Período anterior à formação das comunidades atuais — Caminhos pela Serra Geral são utilizados também por tropeiros na circulação entre as terras baixas do Sul catarinense e os Campos de Cima da Serra.

Por volta de 1918 — Famílias de origem italiana já estabelecidas em outros núcleos do Sul catarinense começam a se instalar no território de Morro Grande.

Décadas seguintes — Comunidades rurais se consolidam tendo a agricultura entre suas principais bases econômicas e sociais.

1º de dezembro de 1961 — É criado o distrito de Morro Grande, no contexto da reorganização territorial envolvendo Turvo e Meleiro.

15 de março de 1992 — É realizado o plebiscito sobre a emancipação.

30 de março de 1992 — A Lei Estadual nº 8.559 cria oficialmente o município de Morro Grande, desmembrado de Meleiro.

3 de outubro de 1992 — É realizada a primeira eleição municipal.

1º de janeiro de 1993 — Tomam posse os primeiros representantes eleitos e inicia-se a administração do novo município.

Fontes consultadas

  • Prefeitura Municipal de Morro Grande — Histórico — utilizada para a narrativa local sobre a chegada das primeiras famílias, origem atribuída ao nome, formação das comunidades e trajetória político-administrativa.
  • Câmara Municipal de Morro Grande — “Em 25 anos de história, Morro Grande atrai pela qualidade de vida” — fonte complementar para memória local, formação do distrito, agricultura e transformações ocorridas após a emancipação.
  • Centro Cultural Pedro Dal Toé — História, patrimônio e cultura de Morro Grande — utilizado especialmente para informações sobre povos originários, tropeirismo, migração das famílias de origem italiana, comunidades e patrimônio cultural.
  • VALDATI, Jairo; MIZIESCKI, Mikael; BANDEIRA, Leonardo Martins. “A paisagem cultural de Morro Grande: entre meandros e ocupações do Rio Manoel Alves” — estudo acadêmico utilizado principalmente para compreender a relação entre ocupação humana, paisagem, agricultura e Rio Manoel Alves.
    Consultar o artigo na Revista Confluências Culturais
  • Pesquisa acadêmica disponível na Biblioteca Universitária da UDESC — utilizada como referência para aspectos da formação histórica do município e, especialmente, para o processo de emancipação e a mobilização realizada junto às comunidades.
    Consultar o trabalho na UDESC
  • Estudo sobre o patrimônio histórico dos caminhos das tropas no Extremo Sul catarinense — utilizado como referência para a circulação tropeira por Morro Grande e para os caminhos relacionados à Serra do Pilão e à região de Nova Roma.
  • Assembleia Legislativa do Estado de Santa Catarina — Lei nº 777, de 1º de dezembro de 1961 — utilizada para reconstruir a criação do distrito e esclarecer a relação administrativa entre Turvo, Meleiro e Morro Grande.
    Consultar a Lei nº 777/1961 na ALESC
  • Assembleia Legislativa do Estado de Santa Catarina — Lei nº 8.559, de 30 de março de 1992 — fonte legal para a criação do município e seu desmembramento de Meleiro.
    Consultar a Lei nº 8.559/1992 na ALESC