Introdução
Localizado no extremo sul de Santa Catarina, aos pés da Serra Geral, o município de Jacinto Machado possui uma história marcada pela força do trabalho, pela ocupação agrícola e pela determinação das famílias que transformaram um território coberto pela Mata Atlântica em uma comunidade próspera.
Embora a emancipação política tenha ocorrido apenas em 1958, a formação do município começou décadas antes, quando os primeiros moradores passaram a ocupar o vale conhecido como Volta Grande. A fertilidade das terras, a abundância de água e a proximidade da serra favoreceram o desenvolvimento da agricultura, atividade que até hoje exerce papel fundamental na economia local.
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Entrar no grupo do WhatsApp →Antes da chegada dos colonizadores, porém, a região já fazia parte da história dos povos indígenas que habitavam a Mata Atlântica do sul do Brasil. Ao longo do tempo, caboclos, imigrantes italianos, alemães e poloneses também deixaram suas contribuições para a formação da identidade jacinto-machadense.
Conhecer a história de Jacinto Machado é compreender como diferentes culturas, unidas pela mesma disposição para trabalhar e construir uma comunidade, deram origem a um município que preserva suas raízes enquanto continua olhando para o futuro.
Antes da colonização
Muito antes da formação do povoado de Volta Grande, o território onde hoje se encontra Jacinto Machado era ocupado por povos indígenas que utilizavam os vales da Serra Geral como área de circulação, caça e coleta.
Entre esses povos destacavam-se os Xokleng, cuja presença abrangia extensas áreas cobertas pela Mata Atlântica entre o litoral e o planalto do Sul do Brasil. Vivendo de forma nômade, acompanhavam o ciclo das estações: durante a primavera e o verão deslocavam-se para as áreas mais baixas, onde encontravam frutas, caça e rios abundantes; nos meses mais frios retornavam ao planalto, aproveitando a oferta de pinhão e outros recursos naturais.
Os Xokleng conheciam profundamente a região. Utilizavam trilhas abertas na mata muito antes da chegada dos colonizadores europeus, caminhos que mais tarde serviriam para tropeiros e para os primeiros moradores que passaram a ocupar o vale.
Com o avanço da colonização europeia no sul catarinense, especialmente a partir do século XIX, o contato entre indígenas e colonizadores tornou-se cada vez mais frequente. Como ocorreu em diversas regiões do estado, esse processo foi marcado por conflitos e pela redução gradual dos territórios tradicionalmente ocupados pelos povos originários.
Segundo registros históricos citados pelo IBGE, entre 1913 e 1915 a região onde hoje se localiza Jacinto Machado ainda era habitada principalmente por caboclos, evidenciando que o processo de ocupação permanente pelos colonizadores ocorreu de forma relativamente tardia quando comparado a outras áreas do litoral sul catarinense.
De Volta Grande ao início do povoamento
A ocupação organizada do território começou nas primeiras décadas do século XX.
Os vales localizados aos pés da Serra Geral ofereciam condições favoráveis para a agricultura, atraindo famílias que buscavam novas oportunidades de trabalho e terras férteis para cultivar.
Entre os primeiros colonizadores registrados destaca-se Antônio Candiotto, vindo da região de Cocal. Sua chegada representa um dos marcos iniciais da formação da comunidade e simboliza o movimento de famílias que deixaram outras colônias italianas do sul catarinense em busca de novas áreas para se estabelecer.
A partir da década de 1920, intensificou-se a chegada de descendentes de italianos provenientes principalmente das colônias de Urussanga, Cocal e Criciúma. Pouco depois, famílias de origem alemã e polonesa também passaram a ocupar diferentes localidades do atual município, contribuindo para formar uma comunidade marcada pela diversidade cultural e pelo forte vínculo com a agricultura.
Os primeiros anos exigiram enorme esforço dos colonizadores. Era necessário abrir áreas de mata, construir moradias, preparar a terra para o cultivo e estabelecer caminhos que permitissem a circulação entre as propriedades rurais.
Pouco a pouco, novas famílias chegaram ao vale. O trabalho coletivo, a ajuda entre vizinhos e a dedicação às atividades agrícolas favoreceram o crescimento da comunidade, dando origem ao pequeno núcleo que mais tarde seria elevado à categoria de distrito.
Nesse período, a vida cotidiana era profundamente ligada ao campo. A produção agrícola garantia o sustento das famílias e estabelecia as bases da economia local, característica que acompanharia o desenvolvimento de Jacinto Machado ao longo das décadas seguintes.
Mais do que construir propriedades rurais, aqueles primeiros moradores lançaram as bases de uma comunidade cuja identidade seria marcada pelo espírito empreendedor, pela cooperação entre as famílias e pela forte ligação com a terra.
Por que o lugar se chamou Volta Grande?
Antes de receber o nome atual, a comunidade era conhecida como Volta Grande.
A origem dessa denominação está diretamente relacionada à geografia da região. Segundo os registros históricos, o antigo caminho de acesso acompanhava o curso do Rio da Pedra — também citado em algumas fontes como Rio Serra da Pedra — obrigando os viajantes a contornar uma ampla curva formada pelo rio antes de chegar ao povoado.
Essa característica da paisagem acabou identificando naturalmente a localidade. Quem seguia pelo vale precisava percorrer essa grande volta, dando origem ao nome que permaneceria durante as primeiras décadas de formação da comunidade.
Foi com esse nome que o núcleo começou a crescer. As primeiras propriedades rurais, os caminhos, as pequenas construções e as relações comunitárias desenvolveram-se em torno da antiga Volta Grande, denominação que permaneceu oficialmente até a década de 1940.
O nome revela uma característica comum às primeiras comunidades do interior catarinense: muitas delas receberam denominações inspiradas na própria paisagem, nos rios, morros ou acidentes geográficos que orientavam a vida dos moradores muito antes da existência de mapas detalhados ou estradas planejadas.
Assim, antes mesmo da criação do município, Volta Grande já representava uma comunidade com identidade própria, construída pelo trabalho de seus moradores e pela estreita relação com o vale onde se estabeleceu.
A mudança para Jacinto Machado
O crescimento da comunidade trouxe também mudanças em sua organização administrativa.
Em 11 de outubro de 1930 foi criado oficialmente o distrito de Volta Grande, então subordinado ao município de Araranguá. O reconhecimento refletia o desenvolvimento da localidade, que já reunia população suficiente para justificar uma administração distrital própria. Jacinto Machado
Poucos anos depois, em 31 de dezembro de 1943, o Governo do Estado promoveu uma ampla reorganização administrativa em Santa Catarina. Na ocasião, o distrito deixou de se chamar Volta Grande e passou a receber o nome de Jacinto Machado, em homenagem ao general Jacinto Machado de Bittencourt, militar que participou da Guerra do Paraguai. A mudança foi oficializada por meio do Decreto-Lei Estadual nº 941. Essa denominação permanece até os dias atuais.
Embora existam relatos sobre outras propostas de nome para a comunidade durante esse período, a documentação oficial consultada confirma apenas a alteração para Jacinto Machado. Por esse motivo, outras versões sobre o processo de escolha do nome merecem pesquisas adicionais antes de serem incorporadas à narrativa histórica do município.
A mudança do nome marcou também uma nova etapa para a comunidade. O antigo núcleo rural de Volta Grande começava a consolidar-se como um importante centro agrícola do Extremo Sul catarinense, preparando-se para conquistar sua autonomia política alguns anos mais tarde.
Agricultura e formação da comunidade
Desde os primeiros tempos de ocupação, a agricultura tornou-se o principal elemento de desenvolvimento de Jacinto Machado.
As condições naturais do vale favoreceram o cultivo de diferentes culturas agrícolas, permitindo que as famílias encontrassem na terra seu principal meio de subsistência e geração de renda. A fertilidade do solo, a disponibilidade de água e o relevo relativamente favorável estimularam a expansão das propriedades rurais e o crescimento gradual da produção.
Ao longo das décadas, o município consolidou-se especialmente na produção de arroz e banana, atividades que se tornaram símbolos da economia local e continuam exercendo papel fundamental no desenvolvimento do município.
O crescimento da agricultura impulsionou também o surgimento de novos serviços. Pequenos estabelecimentos comerciais, escolas, espaços religiosos e outras iniciativas comunitárias acompanharam a expansão da população, fortalecendo os vínculos entre as famílias que se estabeleceram na região.
A convivência entre descendentes de italianos, alemães, poloneses, caboclos e outros grupos contribuiu para formar uma comunidade marcada pela diversidade cultural e pela valorização do trabalho. Essa combinação de diferentes tradições ajudou a construir a identidade jacinto-machadense, preservada ao longo das gerações.
Mais do que uma atividade econômica, a agricultura tornou-se parte da própria história do município. Ela moldou a paisagem, influenciou a cultura local e permanece como uma das principais características de Jacinto Machado até os dias atuais.
O caminho até a emancipação
O desenvolvimento agrícola e o crescimento da população fortaleceram o desejo de autonomia administrativa.
Depois de sua criação como distrito de Araranguá, Volta Grande passou, em 1948, a integrar o recém-criado município de Turvo, permanecendo nessa condição durante parte da década de 1950. A reorganização administrativa refletia as transformações que ocorriam em todo o Extremo Sul catarinense, onde diversas comunidades cresciam e buscavam maior independência para conduzir seu próprio desenvolvimento.
Esse objetivo foi alcançado em 21 de junho de 1958, quando a Lei Estadual nº 348 criou oficialmente o município de Jacinto Machado. A instalação ocorreu em 3 de julho do mesmo ano, marcando o início da administração municipal própria.
A emancipação representou o reconhecimento de uma comunidade construída ao longo de várias décadas pelo esforço de agricultores, comerciantes, lideranças locais e inúmeras famílias que acreditaram no potencial da região.
Mais do que um ato administrativo, a criação do município simbolizou a consolidação de uma identidade própria, iniciada ainda nos tempos da antiga Volta Grande e fortalecida pelo trabalho coletivo de sucessivas gerações.
Patrimônio e identidade cultural
A história de Jacinto Machado foi construída pela contribuição de diferentes povos e pela forte ligação entre a comunidade e a terra.
Os descendentes de italianos, alemães e poloneses trouxeram costumes, técnicas agrícolas, tradições religiosas e formas de organização comunitária que ajudaram a moldar a identidade do município. Ao lado dos caboclos que já habitavam a região e da memória dos povos indígenas que ocuparam o território antes da colonização, essas influências formaram uma comunidade marcada pela diversidade cultural e pelo espírito de cooperação.
A agricultura permanece como um dos principais elementos dessa identidade. Mais do que uma atividade econômica, ela representa um modo de vida transmitido entre gerações. A produção de arroz e banana consolidou-se como símbolo do município e ajudou a projetar Jacinto Machado no cenário estadual, sendo celebrada inclusive por meio da Banarroz, evento que valoriza a produção agrícola e a cultura local.
Ao mesmo tempo, a proximidade com a Serra Geral e as áreas preservadas de Mata Atlântica reforça a relação histórica entre a população e a natureza. O território que um dia foi desbravado pelos primeiros colonizadores hoje abriga importantes paisagens naturais e integra uma das regiões mais conhecidas do sul do Brasil pela riqueza ambiental.
Essa combinação entre trabalho, tradição e natureza continua sendo uma das principais características da identidade jacinto-machadense.
Jacinto Machado atualmente
Mais de seis décadas após a emancipação, Jacinto Machado mantém uma economia fortemente ligada ao campo, ao mesmo tempo em que amplia sua participação nas atividades de turismo de natureza.
A agricultura continua ocupando posição de destaque, impulsionando o comércio, os serviços e diferentes segmentos da economia local. Paralelamente, a proximidade com a Serra Geral, os cânions, rios e cachoeiras vem fortalecendo o município como porta de entrada para experiências de ecoturismo e turismo de aventura.
Mesmo acompanhando as transformações econômicas e sociais das últimas décadas, Jacinto Machado preserva características presentes desde sua formação: a valorização do trabalho, o espírito comunitário e a forte ligação de seus moradores com o território onde construíram sua história.
Conhecer o passado de Jacinto Machado é compreender como um pequeno núcleo chamado Volta Grande cresceu graças ao esforço de sucessivas gerações e se transformou em um município que preserva suas origens enquanto continua construindo o próprio futuro.
Curiosidades históricas
Antes de Jacinto Machado, o município chamava-se Volta Grande
O primeiro nome oficial da comunidade fazia referência à grande curva do Rio da Pedra, que obrigava os viajantes a percorrer um longo desvio para alcançar o povoado.
O nome atual homenageia um militar brasileiro
Desde 1943, o antigo distrito de Volta Grande passou a chamar-se Jacinto Machado, em homenagem ao general Jacinto Machado de Bittencourt, participante da Guerra do Paraguai.
A agricultura sempre esteve presente
Desde os primeiros colonizadores, a produção agrícola constituiu a principal base econômica da comunidade, característica que permanece até os dias atuais.
Linha do tempo
Antes do século XIX — Povos indígenas, especialmente os Xokleng, ocupam a região coberta pela Mata Atlântica.
1913–1915 — Registros indicam a presença predominante de caboclos na região.
Início do século XX — Intensifica-se a chegada dos primeiros colonizadores.
1921 — Colonos italianos provenientes da região de Criciúma e Urussanga ampliam a ocupação do vale.
11 de outubro de 1930 — Criação do distrito de Volta Grande.
31 de dezembro de 1943 — O distrito passa a denominar-se Jacinto Machado.
30 de dezembro de 1948 — O distrito é incorporado ao município de Turvo.
21 de junho de 1958 — Criação do município de Jacinto Machado.
3 de julho de 1958 — Instalação oficial do município.
Fontes consultadas
A elaboração deste artigo baseou-se, prioritariamente, em documentos oficiais e referências históricas sobre a formação do município.
Fontes principais
- Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) — Histórico e Formação Administrativa de Jacinto Machado.
- Pesquisa histórica reproduzida pelo Avaí Futebol Clube por ocasião da homenagem ao município, baseada na colonização regional e na ocupação do território.
Fontes complementares
- Materiais institucionais consultados para contextualização da evolução econômica e cultural do município, utilizados apenas quando compatíveis com as informações das fontes principais.


