História de Maracajá: dos antigos habitantes à ferrovia que ajudou a formar a cidade

Muito antes da chegada dos trilhos, diferentes grupos humanos já haviam ocupado o território. Séculos depois, a ferrovia transformaria a circulação, o comércio e a organização da comunidade que se tornaria Maracajá.

Compartilhar

Fonte da imagem original: site da Prefeitura de Maracajá. Imagem ampliada e restaurada com auxílio de inteligência artificial pelo SC Extremo Sul.

Uma história que começou muito antes da ferrovia

Durante muito tempo, a história de Maracajá foi associada principalmente à chegada da Estrada de Ferro Dona Teresa Cristina e à formação da comunidade nas primeiras décadas do século XX.

Entre no grupo oficial do SC Extremo Sul

As pesquisas arqueológicas realizadas no município, entretanto, permitiram olhar muito mais para trás.

Em 2004, um trabalho de mapeamento arqueológico percorreu o território de Maracajá em busca de evidências das populações que viveram na região antes da colonização europeia. A pesquisa identificou e cadastrou nove sítios arqueológicos, com vestígios relacionados a diferentes grupos que ocuparam o território.

Entre os materiais encontrados estão artefatos de pedra associados às atividades cotidianas dessas populações. As pesquisas apontam para a presença de grupos que viviam da caça, da pesca e da coleta de alimentos, além de ocupações posteriores relacionadas a outras formas de utilização do território.

Essas descobertas ampliaram a própria compreensão sobre a história local. A presença humana naquela área antecede em muito o povoamento que, séculos depois, daria origem ao município.

A formação do Maracajá moderno aconteceria muito mais tarde.

Antes dos trilhos, agricultores já ocupavam o território

No século XIX, a ocupação da região do Vale do Araranguá avançou gradualmente a partir de núcleos estabelecidos mais próximos do litoral.

Segundo o histórico do IBGE, os colonizadores que chegaram ao Vale do Araranguá vieram de Laguna e inicialmente se estabeleceram nas proximidades do Morro dos Conventos. A partir daí, o povoamento avançou para outras áreas do vale.

No território que atualmente pertence a Maracajá, a ocupação era inicialmente dispersa.

Antes da formação de um núcleo urbano mais definido, já havia agricultores estabelecidos em diferentes pontos da região, ligados administrativamente e economicamente a Araranguá.

A produção era principalmente de subsistência, mas algumas atividades de transformação já estavam presentes. Os registros mencionam engenhos de farinha de mandioca, produção de açúcar e aguardente e torrefação de café.

A agricultura e a pecuária garantiam a sobrevivência das famílias e, conforme a produção aumentava, parte dos excedentes passou a ser comercializada.

Os registros municipais também apontam uma formação populacional diversificada, com diferentes origens culturais presentes ao longo da ocupação do território. Entre as influências mais frequentemente mencionadas na história local estão as tradições açorianas e italianas.

Maracajá, portanto, não surgiu em uma área desocupada quando os trilhos chegaram.

A ferrovia encontraria uma região rural já habitada e começaria a modificar profundamente sua dinâmica.

De Cangicas a Hercílio Luz e Morretes

Enquanto a ocupação avançava, o território também passou por sucessivas mudanças administrativas e de nome.

Em 9 de julho de 1917, foi criado o distrito de Cangicas, subordinado ao município de Araranguá.

Poucos anos depois, em 1923, Cangicas passou a denominar-se Hercílio Luz.

Uma nova mudança ocorreu em 1938, quando o distrito recebeu o nome de Morretes.

As fontes administrativas permitem estabelecer com segurança quando essas alterações ocorreram, mas os materiais consultados não oferecem elementos suficientes para explicar com a mesma segurança a origem de todas essas denominações.

Para Morretes, a tradição municipal relaciona o nome à presença de diferentes morros na paisagem local.

Foi justamente durante esse período de mudanças que outro acontecimento transformaria a comunidade de maneira muito mais profunda.

Os trilhos estavam chegando.

A ferrovia muda o ritmo da comunidade

No início da década de 1920, avançou pela região a construção do ramal da Estrada de Ferro Dona Teresa Cristina, estabelecendo uma ligação ferroviária entre Criciúma e Araranguá.

A ferrovia não criou a ocupação de Maracajá, mas teve papel fundamental na transformação daquele território predominantemente rural.

A construção dos trilhos exigiu trabalhadores. Pessoas de diferentes localidades chegaram para atuar nas obras, enquanto outras perceberam oportunidades de comércio e prestação de serviços junto à nova estrutura.

Em dezembro de 1921, foi inaugurada a Estação de Morretes, posteriormente denominada Maracajá.

A partir daquele momento, a ferrovia passou a oferecer uma nova possibilidade para o deslocamento de pessoas e, principalmente, para o escoamento da produção.

Produtos cultivados e beneficiados na região podiam alcançar outros mercados com maior facilidade.

Mas o efeito dos trilhos foi além do transporte.

Ao redor da estação, um núcleo ganha força

A presença dos trabalhadores e a circulação proporcionada pela ferrovia criaram demanda por comércio, hospedagem, alimentação e diferentes serviços.

Gradualmente, atividades começaram a se concentrar nas proximidades da estação.

A pesquisa do historiador Lúcio Vânio Moraes, dedicada à presença da Estrada de Ferro Dona Teresa Cristina em Maracajá, ajuda a compreender esse processo por meio das trajetórias das próprias famílias.

Entre os casos registrados está o de Giácomo de Pellegrini, que chegou à região do Cedro por volta de 1920, período em que o ramal estava sendo construído.

A movimentação dos trabalhadores criou oportunidade para a instalação de comércio. Posteriormente, produtos como farinha e banha também passaram a ser negociados e transportados pela ferrovia.

Outras atividades surgiram ou se fortaleceram acompanhando a circulação proporcionada pelos trilhos.

Dessa maneira, a estação passou a exercer uma função que ultrapassava o embarque de passageiros ou mercadorias. Ela ajudava a aproximar moradores, produtores, comerciantes e trabalhadores.

O território rural disperso não desapareceu. A agricultura continuava sendo fundamental para a comunidade.

Mas ao redor da ferrovia um núcleo mais concentrado de população, comércio e serviços ganhava força.

É nesse sentido que os trilhos ocupam um lugar tão importante na história de Maracajá: não representam o começo da ocupação humana do território, mas ajudaram decisivamente a moldar a comunidade que posteriormente se transformaria em cidade.

Morretes passa a se chamar Maracajá

Em 1943, ocorreu mais uma mudança de nome.

O distrito de Morretes passou oficialmente a denominar-se Maracajá.

A cronologia é importante porque algumas narrativas posteriores situam essa mudança depois da emancipação municipal. Os registros administrativos mostram, entretanto, que o nome Maracajá já estava oficialmente estabelecido mais de duas décadas antes da criação do município.

Segundo a história preservada localmente, a existência de Morretes, no Paraná, provocava confusões, especialmente no envio e recebimento de correspondências. A duplicidade teria contribuído para a escolha de uma nova denominação.

O nome escolhido foi Maracajá, termo de origem indígena associado ao gato-maracajá, felino silvestre encontrado nas matas brasileiras.

A tradição municipal relaciona a escolha à presença desses animais nas matas da região.

Depois de Cangicas, Hercílio Luz e Morretes, o distrito finalmente recebia o nome que permaneceria.

Frei Euzébio e a organização da comunidade

Nas décadas seguintes, Maracajá continuou se transformando.

A agricultura permanecia fundamental, mas a comunidade adquiria novas estruturas e fortalecia sua organização social.

A religiosidade também ocupava espaço importante na vida dos moradores.

Entre os personagens que aparecem nesse período está Frei Euzébio Ferretto, que chegou a Maracajá em 1956 e se tornou uma das figuras de destaque da comunidade.

Sua atuação esteve ligada à vida religiosa e comunitária, incluindo a construção da Igreja Imaculada Conceição e outras estruturas paroquiais.

Outra manifestação que se consolidaria como referência religiosa do município é a peregrinação da Via Sacra ao Morro da Cruz, na comunidade de Espigão da Toca, realizada durante a Semana Santa e preservada ao longo das gerações.

Frei Euzébio também aparece entre as lideranças relacionadas a outro movimento que ganharia força naquele período: a busca pela emancipação político-administrativa.

O movimento pela emancipação

Na década de 1960, a comunidade passou a reivindicar sua autonomia em relação a Araranguá.

As fontes locais associam ao movimento emancipacionista diferentes moradores e lideranças, entre eles Frei Euzébio Ferretto, Antônio da Rocha, Mário Carradore, Astir Demétrio da Rocha e Lauro Scarduelli.

A mobilização resultou na Lei Estadual nº 1.063, de 12 de maio de 1967, que elevou Maracajá à categoria de município, desmembrando seu território de Araranguá.

Depois de décadas como distrito, a comunidade conquistava autonomia administrativa.

A instalação oficial ocorreu em 30 de dezembro de 1967.

A emancipação estabelecia um novo marco político, mas não rompia os vínculos construídos durante a formação da comunidade.

A agricultura, as comunidades rurais, a ferrovia e as diferentes heranças culturais continuariam presentes na identidade do novo município.

Da agricultura de subsistência à produção comercial

A agricultura atravessa diferentes períodos da história de Maracajá.

Nas propriedades mais antigas, a produção estava inicialmente voltada à sobrevivência das famílias. Cultivavam-se produtos como milho, mandioca, cana-de-açúcar, feijão e hortaliças.

Os engenhos permitiam transformar parte dessa produção em farinha, açúcar e aguardente.

Conforme aumentavam a produção e as possibilidades de transporte, os excedentes passaram a alcançar outros mercados.

A ferrovia teve participação nessa mudança ao facilitar o escoamento de gêneros produzidos na região.

Posteriormente, outras culturas ganharam espaço. Arroz e fumo passaram a ocupar posição importante na economia rural do município, enquanto novas atividades econômicas também começaram a se desenvolver.

Assim, a agricultura permaneceu como uma ligação entre diferentes momentos da história local: estava presente antes da ferrovia, acompanhou a formação do núcleo urbano e continuou importante depois da emancipação.

Dos antigos habitantes à cidade formada junto aos trilhos

A história de Maracajá reúne diferentes camadas de ocupação e transformação.

Os sítios arqueológicos mostram que seres humanos percorriam e ocupavam aquele território muito antes da chegada dos colonizadores europeus.

Séculos depois, agricultores se estabeleceram de maneira dispersa, cultivando a terra, criando animais e instalando pequenas estruturas para transformar aquilo que produziam.

No início do século XX, a ferrovia acelerou as mudanças.

A chegada dos trabalhadores, a circulação de mercadorias e passageiros e o surgimento de comércio e serviços ajudaram a concentrar atividades ao redor dos trilhos.

Cangicas tornou-se Hercílio Luz, depois Morretes e finalmente Maracajá.

Em 1967, o antigo distrito conquistou sua autonomia e passou a escrever sua trajetória como município.

Por isso, a ferrovia ocupa um lugar especial nessa história sem precisar ser transformada em seu ponto inicial.

Maracajá já possuía uma longa história humana quando os primeiros trens atravessaram seu território. O que os trilhos fizeram foi ajudar a aproximar pessoas, produção e comércio, contribuindo para transformar uma ocupação predominantemente rural na comunidade que daria forma à cidade.

Linha do tempo de Maracajá

Período anterior à colonização europeia — Diferentes grupos humanos ocupam o território. Pesquisas arqueológicas realizadas séculos depois identificariam nove sítios e diferentes vestígios dessa presença.

Século XIX — Agricultores ocupam diferentes áreas do atual município, então vinculadas a Araranguá.

9 de julho de 1917 — É criado o distrito de Cangicas, pertencente ao município de Araranguá.

Início da década de 1920 — A construção do ramal da Estrada de Ferro Dona Teresa Cristina entre Criciúma e Araranguá atrai trabalhadores e modifica a circulação pela região.

Dezembro de 1921 — É inaugurada a Estação de Morretes.

1923 — O distrito de Cangicas passa a denominar-se Hercílio Luz.

1938 — Hercílio Luz passa a denominar-se Morretes.

1943 — O distrito recebe o nome de Maracajá.

1956 — Frei Euzébio Ferretto chega à comunidade e passa a participar da vida religiosa e comunitária local.

12 de maio de 1967 — A Lei Estadual nº 1.063 cria o município de Maracajá, desmembrado de Araranguá.

30 de dezembro de 1967 — O município é oficialmente instalado.

Fontes consultadas

  • IBGE — Histórico e Formação Administrativa de Maracajá — principal referência para o levantamento arqueológico citado no histórico municipal, ocupação do Vale do Araranguá, mudanças de denominação e formação administrativa.
  • Prefeitura Municipal de Maracajá — Histórico do Município — utilizada para informações complementares sobre formação populacional, atividades econômicas, ferrovia, origem atribuída ao nome e manifestações culturais.
  • FARIAS, Deisi Scunderlick Eloy de (org.). Maracajá: pré-história e arqueologia (2005) — publicação resultante das pesquisas arqueológicas realizadas no município.
  • FARIAS, Deisi Scunderlick Eloy de; NEU, Márcia Fernandes da Rosa; SOUZA, Odécia Almeida de. Uma Aventura pela História de Maracajá (2007) — publicação voltada à história e ao patrimônio cultural e ambiental do município.
  • MACHADO, Sibeli Cardoso Borba. Dissertação de mestrado — UDESC — utilizada como referência acadêmica para o levantamento arqueológico, o patrimônio e a construção da narrativa histórica municipal.
    Consultar a dissertação na UDESC
  • MORAES, Lúcio Vânio — estudos sobre a Estrada de Ferro Dona Teresa Cristina em Maracajá — referência para compreender a influência dos trilhos sobre o povoamento, o comércio e a organização da comunidade.
  • Estações Ferroviárias do Brasil — Estação Maracajá — utilizada como fonte complementar para a inauguração da antiga Estação de Morretes em dezembro de 1921 e a trajetória da estrutura ferroviária.
    Estação de Maracajá — histórico ferroviário