História de Meleiro: das primeiras famílias à conquista definitiva da emancipação

Antes da chegada das famílias italianas, moradores já ocupavam as terras e antigos caminhos atravessavam a região. Às margens do Rio Manoel Alves, diferentes famílias ajudariam a formar Meleiro, município que décadas depois precisaria conquistar sua autonomia duas vezes.

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Antes da formação do povoado, uma região de passagem

Antes que Meleiro começasse a adquirir as características de uma comunidade organizada, seu território já fazia parte dos caminhos percorridos por quem transitava entre diferentes áreas do Sul catarinense.

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O histórico preservado pela Prefeitura de Meleiro registra a passagem de tropeiros, que utilizavam a região como parte da ligação entre o litoral e o planalto. Por esses caminhos circulavam pessoas, animais e mercadorias, em uma época em que estradas estruturadas ainda estavam distantes da realidade local.

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Esse registro aproxima Meleiro de uma dinâmica que marcou diferentes pontos do Extremo Sul catarinense. Os caminhos utilizados para atravessar o território antecederam muitos dos povoados que posteriormente se formariam na região.

No caso de Meleiro, as fontes disponíveis não permitem reconstruir com segurança as antigas rotas ou estabelecer quando essa circulação começou. O registro permite observar, entretanto, que o território já era utilizado como área de passagem antes da consolidação do povoamento que daria origem ao município.

As famílias Rocha e Macedo e os primeiros moradores registrados

Alguns históricos resumem a colonização de Meleiro à chegada de famílias italianas no final do século XIX e início do século XX. A documentação municipal, entretanto, apresenta uma formação mais gradual.

Por volta de 1892, as famílias Rocha e Macedo já aparecem entre os moradores da região.

A Prefeitura registra Bartolomeu Rocha e sua esposa Celina entre os primeiros habitantes mencionados na história local. Em um primeiro momento, a sobrevivência estava associada à caça e à pesca e, posteriormente, à agricultura e à criação de animais para subsistência.

A ocupação acontecia em um território ainda marcado pela presença de extensas áreas de mata e pelas dificuldades de deslocamento.

As fontes consultadas não permitem reconstruir em detalhes a trajetória dessas primeiras famílias ou determinar quantas pessoas já viviam na região naquele período. O registro é importante, porém, porque mostra que a formação de Meleiro não começou exclusivamente com a chegada das famílias italianas.

A presença dessas famílias ganharia força nos anos seguintes e deixaria marcas profundas na história do município.

A chegada das famílias italianas amplia o povoamento

Nas primeiras décadas do século XX, novas famílias passaram a ocupar as terras de Meleiro.

Entre elas estavam famílias de origem italiana que procuravam propriedades onde pudessem trabalhar e construir uma nova vida. Sua presença teria grande influência na formação econômica, social e cultural da comunidade.

O histórico municipal registra que, durante esse processo, houve inicialmente interesse em estabelecer um núcleo em Sanga das Pedras. Com o avanço do povoamento, porém, outra área ganhou importância: as terras próximas ao Rio Manoel Alves.

O rio passaria a aparecer repetidamente na trajetória da comunidade.

Foi próximo dele que algumas famílias estabeleceram suas propriedades e começaram a desenvolver atividades que iam além da produção destinada à própria subsistência.

Antônio e Ernesta Rosso, João Mezzari e a formação da comunidade

Em 1912, Antônio Rosso e Ernesta Rosso adquiriram terras às margens do Rio Manoel Alves e construíram sua moradia.

A chegada de novas famílias foi acompanhada pelo surgimento de atividades necessárias para atender uma comunidade que começava a crescer.

O histórico municipal registra o aparecimento de uma pequena casa comercial e de uma atafona, utilizada para transformar grãos em farinha.

Outro nome presente nessa etapa é João Mezzari, que também se estabeleceu próximo ao Rio Manoel Alves. À família Mezzari são associadas atividades como a instalação de uma serraria e uma das primeiras iniciativas particulares de geração de energia elétrica mencionadas na história local.

Essas estruturas ajudam a compreender como um território inicialmente ocupado por propriedades dispersas começou gradualmente a desenvolver relações econômicas mais complexas.

Produzir alimentos continuava sendo essencial, mas a comunidade também precisava serrar madeira, transformar grãos, comercializar produtos e melhorar as condições de circulação entre as propriedades.

Pouco a pouco, um núcleo começava a ganhar forma.

O Rio Manoel Alves acompanha o crescimento de Meleiro

O Rio Manoel Alves aparece como um elemento recorrente nos registros sobre a formação de Meleiro.

Suas margens estiveram associadas à instalação de famílias e ao desenvolvimento das primeiras atividades econômicas. Ao mesmo tempo, o rio representava um obstáculo para o deslocamento dos moradores.

Um marco desse processo ocorreu em 1923, com a construção de uma ponte pênsil sobre o Rio Manoel Alves.

A nova travessia facilitava a circulação entre diferentes pontos de uma comunidade em formação e acompanhava o crescimento de um núcleo que, poucos anos depois, alcançaria reconhecimento administrativo.

A paisagem que havia recebido famílias dispersas passava gradualmente a reunir propriedades agrícolas, comércio, pequenas estruturas produtivas e caminhos de ligação.

Foi nesse território que também se consolidou um nome bastante particular.

De onde veio o nome Meleiro?

Apesar do nome, a história de Meleiro não está relacionada à formação de um grande centro produtor de mel.

A tradição registrada pelas fontes oficiais associa a denominação à abundância de abelhas e mel encontrada na região nos primeiros tempos do povoamento.

O histórico do IBGE registra que os colonizadores encontraram inúmeras colmeias e grande quantidade de mel, circunstância que teria levado ao uso do nome Meleiro.

A Prefeitura acrescenta um detalhe à tradição. Segundo o histórico municipal, em uma elevação que posteriormente ficaria conhecida como Morrinho da Igreja havia grande concentração de abelheiras e, consequentemente, abundância de mel.

Assim, embora os detalhes tenham sido preservados principalmente pela tradição local, a associação entre o nome Meleiro e a abundância de mel encontrada no território aparece de forma consistente nos históricos consultados.

Enquanto o nome se consolidava, a própria comunidade avançava para uma nova etapa de organização.

Meleiro torna-se distrito

Nas primeiras décadas do século XX, o crescimento do povoamento começou a se refletir também na organização administrativa.

Em 1925, Meleiro foi elevado à categoria de distrito, permanecendo ligado ao município de Araranguá.

A mudança representava o reconhecimento administrativo de uma comunidade que havia se estruturado gradualmente desde o final do século XIX.

Mas o vínculo com Araranguá não seria permanente.

Em 30 de dezembro de 1948, a criação do município de Turvo modificou a organização territorial dessa parte do Extremo Sul catarinense.

Meleiro deixou de pertencer a Araranguá e passou a integrar o novo município de Turvo.

Naquele momento, Turvo reunia cinco distritos: Turvo, Meleiro, Jacinto Machado, Praia Grande e Timbé. Parte considerável do interior da região estava, portanto, reunida sob uma mesma administração municipal.

Nos anos seguintes, esse mapa voltaria a mudar.

E, no caso de Meleiro, a busca pela autonomia teria uma trajetória especialmente incomum.

A primeira emancipação de Meleiro

Em 21 de junho de 1958, a Lei Estadual nº 348 elevou Meleiro à categoria de município.

Depois de décadas como distrito — primeiro de Araranguá e posteriormente de Turvo — Meleiro conquistava sua autonomia político-administrativa.

Parecia ser o encerramento de uma trajetória iniciada com a formação da comunidade.

Não seria.

A primeira existência de Meleiro como município duraria pouco mais de um ano. Uma decisão judicial colocaria em questão justamente a legislação que havia garantido sua emancipação.

Uma decisão do STF faz Meleiro voltar a Turvo

Em 1959, a primeira emancipação sofreu uma reviravolta.

A criação de Meleiro estabelecida pela legislação estadual de 1958 foi considerada inconstitucional pelo Supremo Tribunal Federal.

Com a decisão, a autonomia conquistada no ano anterior não pôde ser mantida.

A Lei Estadual nº 446, de 20 de outubro de 1959, formalizou a extinção do município, e Meleiro voltou a integrar Turvo.

Para uma comunidade que acabara de conquistar sua autonomia, significava retornar administrativamente à situação anterior.

Mas a história da emancipação de Meleiro ainda não estava encerrada.

Apenas dois anos depois, o município seria criado novamente.

Meleiro conquista definitivamente sua autonomia

Em 27 de novembro de 1961, a Lei Estadual nº 773 voltou a elevar Meleiro à categoria de município.

Desta vez, a emancipação se consolidaria.

A instalação do município ocorreu em 20 de dezembro de 1961, iniciando uma nova etapa administrativa.

Edevar de Pelegrini foi nomeado prefeito provisório pelo governador Celso Ramos. Posteriormente, deixou o cargo para concorrer nas eleições municipais, e Leandro Coral assumiu provisoriamente a administração.

Em 7 de outubro de 1962, os moradores participaram da eleição que escolheria o primeiro prefeito após a emancipação definitiva.

O eleito foi Luis de Pelegrini.

Em um intervalo de apenas três anos, Meleiro havia passado por uma sequência pouco comum: tornou-se município, perdeu a autonomia e precisou conquistá-la novamente.

A partir de 1961, sua condição de município seria definitiva.

A agricultura acompanha as transformações de Meleiro

Enquanto limites territoriais e estruturas administrativas mudavam, uma atividade acompanhava praticamente toda a trajetória da comunidade: a agricultura.

Ela já estava presente entre os primeiros moradores, inicialmente ligada principalmente à subsistência das famílias.

Com a ampliação do povoamento, a atividade passou gradualmente a gerar excedentes e participar cada vez mais da economia local. Ao longo do desenvolvimento do município, culturas como arroz, milho, feijão e fumo tiveram importância nas propriedades rurais.

Entre elas, o arroz ganharia progressivamente maior protagonismo.

As áreas planas e a disponibilidade de água favoreceram uma atividade que posteriormente se tornaria uma das principais características econômicas de Meleiro.

A transformação da rizicultura

A história do arroz em Meleiro também faz parte de uma transformação agrícola que atingiu diferentes municípios do Extremo Sul catarinense.

Pesquisa acadêmica dedicada à evolução da rizicultura em Meleiro e Turvo mostra uma atividade inicialmente fortemente vinculada às propriedades familiares.

Durante décadas, grande parte do trabalho dependia da mão de obra das próprias famílias e de técnicas tradicionais.

Esse cenário começou a mudar de maneira mais intensa principalmente a partir das décadas de 1970 e 1980.

A expansão da irrigação, a mecanização e programas voltados ao aproveitamento das áreas de várzea, entre eles o PROVÁRZEAS, contribuíram para modificar a produção.

O arroz passou a alcançar maior produtividade e ganhou ainda mais importância econômica.

Em Meleiro, essa transformação representou uma nova etapa de uma relação com a terra que já estava presente desde os primeiros moradores registrados no final do século XIX.

Um município construído em diferentes etapas

A história de Meleiro não começa em uma única data nem pode ser atribuída a apenas um grupo de colonizadores.

Antes da consolidação do povoado, o território já era atravessado por antigos caminhos. Por volta de 1892 aparecem as famílias Rocha e Macedo entre os primeiros moradores registrados. Posteriormente, a chegada de famílias de origem italiana ampliou a ocupação e deixou marcas profundas na formação da comunidade.

Às margens do Rio Manoel Alves surgiram propriedades e atividades que ajudaram a estruturar o núcleo. Comércio, atafonas, serrarias, caminhos e novas formas de travessia acompanharam o crescimento da população.

Meleiro tornou-se distrito, deixou Araranguá para integrar Turvo e, décadas depois, buscou sua própria autonomia.

Essa última etapa reservou uma trajetória incomum.

O município criado em 1958 perdeu sua autonomia no ano seguinte depois de uma decisão do Supremo Tribunal Federal. Em 1961, uma nova legislação devolveu definitivamente a Meleiro a condição de município.

Enquanto essas mudanças aconteciam, a agricultura permaneceu como elemento de continuidade. Das primeiras produções destinadas à sobrevivência das famílias à expansão da rizicultura, a relação com a terra acompanhou diferentes gerações.

Meleiro foi, assim, sendo construído em sucessivas etapas: pela ocupação do território, pela formação da comunidade, pelo trabalho das famílias e por uma autonomia municipal que precisou ser conquistada duas vezes.

Linha do tempo de Meleiro

Antes da formação do povoado — O território é utilizado como área de passagem por tropeiros que circulavam entre o litoral e o planalto.

Por volta de 1892 — As famílias Rocha e Macedo aparecem entre os primeiros moradores registrados na história local.

1912 — Antônio e Ernesta Rosso adquirem terras às margens do Rio Manoel Alves.

Primeiras décadas do século XX — Famílias de origem italiana ampliam o povoamento e surgem atividades como comércio, atafona e serraria.

1923 — É construída uma ponte pênsil sobre o Rio Manoel Alves.

1925 — Meleiro é elevado à categoria de distrito, pertencente a Araranguá.

30 de dezembro de 1948 — Com a criação do município de Turvo, Meleiro deixa de pertencer a Araranguá e passa a integrar o novo município.

21 de junho de 1958 — Meleiro é elevado pela primeira vez à categoria de município pela Lei Estadual nº 348.

1959 — O Supremo Tribunal Federal considera inconstitucional a criação do município.

20 de outubro de 1959 — A Lei Estadual nº 446 formaliza a extinção do município, e Meleiro volta a integrar Turvo.

27 de novembro de 1961 — A Lei Estadual nº 773 eleva novamente Meleiro à categoria de município.

20 de dezembro de 1961 — O município é oficialmente instalado.

7 de outubro de 1962 — Luis de Pelegrini é eleito prefeito após a emancipação definitiva.

Décadas de 1970 e 1980 — A rizicultura passa por transformações com expansão da irrigação, mecanização e programas voltados às áreas de várzea.

Fontes consultadas

  • Prefeitura de Meleiro — História da Colonização — utilizada principalmente para os registros sobre tropeiros, famílias Rocha e Macedo, Antônio e Ernesta Rosso, João Mezzari, Rio Manoel Alves e primeiras atividades econômicas.
    História da Colonização — Prefeitura de Meleiro
  • Prefeitura de Meleiro — Origem do nome Meleiro — utilizada para a tradição relacionada às abelheiras, ao mel e ao Morrinho da Igreja.
    Origem do nome Meleiro — Prefeitura de Meleiro
  • IBGE — Histórico e Formação Administrativa de Meleiro — utilizado especialmente para conferir a formação administrativa e como fonte complementar para a origem do nome.
    Histórico de Meleiro — IBGE
  • Assembleia Legislativa de Santa Catarina — Lei Estadual nº 773/1961 — utilizada para a emancipação definitiva de Meleiro.
    Consultar a Lei Estadual nº 773
  • Senado Federal — Anais de 1962 — documentação utilizada para confirmar a decisão do Supremo Tribunal Federal que considerou inconstitucional a primeira criação do município.
    Consultar os Anais do Senado Federal
  • Prefeitura de Meleiro — Plano Municipal de Saneamento Básico — fonte complementar para a instalação definitiva do município e os primeiros administradores após a emancipação.
    Consultar o documento
  • “Evolução recente da rizicultura nos municípios de Turvo e Meleiro no Estado de Santa Catarina” — pesquisa acadêmica utilizada como referência para as transformações da rizicultura e da agricultura familiar.
    Consultar a pesquisa acadêmica

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