História de Timbé do Sul: dos caminhos dos tropeiros na Serra Geral à formação do município

Antes da chegada das famílias que formariam o povoado, os caminhos pela Serra Geral já faziam parte da região. Entre tropeiros, colonizadores, agricultura e diferentes nomes, foi se formando Timbé do Sul.

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Interior de Timbé do Sul, em 2026. Foto editada com efeito de imagem antiga, para fins ilustrativos.

Localizado aos pés da Serra Geral, Timbé do Sul teve sua formação ligada aos caminhos que conectavam o planalto às áreas mais baixas do Extremo Sul catarinense. Antes mesmo da chegada dos colonizadores italianos no início do século XX, esses trajetos já eram percorridos por tropeiros que atravessavam a região.

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Com o tempo, locais de passagem se transformaram em áreas de ocupação. Famílias chegaram, propriedades foram estabelecidas, estradas abertas e atividades comerciais começaram a surgir. A comunidade passou por diferentes denominações até chegar ao atual nome de Timbé do Sul.

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Conhecer essa trajetória permite olhar para além da emancipação política de 1967 e compreender como os caminhos da serra, a colonização e o trabalho de sucessivas gerações contribuíram para a formação do município.

O tropeirismo e os antigos caminhos da Serra Geral

No final do século XIX, tropeiros utilizavam caminhos pela Serra Geral para circular entre o planalto e o litoral. Estudos sobre a formação histórica da região registram rotas pelas serras do Pilão, Rocinha, Velha e Figueira.

Em uma época sem as estradas atuais, vencer a Serra Geral significava percorrer trilhas condicionadas pelo relevo, pela vegetação e pelas possibilidades naturais de passagem entre os paredões.

Ao longo dessas rotas existiam pontos utilizados para parada e descanso das tropas. Um deles aparece nas pesquisas históricas como Rodeio das Corticeiras, denominação relacionada aos primeiros tempos da ocupação da área onde posteriormente se desenvolveria Timbé do Sul.

A presença desses caminhos é importante para compreender a formação da comunidade. Antes de ser um lugar de permanência para as famílias que chegariam nas primeiras décadas do século XX, aquela região fazia parte de uma rede de circulação entre a serra e as áreas mais baixas.

Com o passar do tempo, os caminhos também favoreceram o acesso de novos moradores. Um território anteriormente atravessado começou gradualmente a se tornar um território ocupado.

A chegada das famílias e a formação da comunidade

A ocupação ganhou força nas primeiras décadas do século XX.

Segundo o histórico do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), os gaúchos Luiz Gonzaga da Rosa e Scheineider receberam do Governo Imperial uma sesmaria que abrangia grande parte das terras do atual município.

O mesmo histórico registra que, em 1915, essas terras começaram a ser loteadas e que, em 1917, parcelas foram vendidas a imigrantes italianos deslocados de Nova Veneza, no Sul de Santa Catarina.

Entre os pioneiros considerados fundadores pelas fontes históricas estão José Marchesini, Pio Damiani, os irmãos Luiz, Ernesto e Ângelo Zanelatto e João e Mansuetto Pelozzatto.

Posteriormente chegaram outras famílias, entre elas as de João Tramontin, Ângelo Dal Pont, Francisco Búrigo e José Sávio.

Esses colonizadores encontraram uma região ainda com pouca infraestrutura. Estabelecer propriedades, preparar as terras para o cultivo, construir moradias e melhorar os caminhos faziam parte do cotidiano das famílias que começavam uma nova vida naquele território.

A agricultura tornou-se uma das bases da comunidade. Com a ampliação da produção e a chegada de novos moradores, crescia também a necessidade de estabelecer melhores ligações com outras localidades do Extremo Sul.

A estrada Araranguá–Rocinha e o início do comércio

Um passo importante ocorreu em 1919, quando começou a abertura da estrada de rodagem Araranguá–Rocinha.

A nova ligação contribuiu para melhorar a circulação e o escoamento da produção, favorecendo o desenvolvimento da comunidade que começava a se consolidar aos pés da Serra Geral.

No ano seguinte, Carlos Savi chegou à localidade e instalou a primeira casa comercial e a primeira serraria, segundo os registros históricos.

A escolha daquele ponto para o comércio também estava relacionada aos caminhos existentes. Estudos sobre o patrimônio histórico regional registram a confluência de rotas utilizadas por tropas provenientes das serras da Rocinha e da Figueira.

Os antigos caminhos dos tropeiros, portanto, não desapareceram imediatamente com a chegada dos colonizadores. Eles continuaram influenciando a circulação e a própria organização da comunidade.

Com agricultura, estradas e comércio se desenvolvendo, outras estruturas necessárias à vida coletiva começaram a surgir. Em 1927 foram construídas a primeira escola e a primeira igreja, dois marcos do processo de organização daquele núcleo populacional.

Corticeira, Rocinha e Timbé: os diferentes nomes

As mudanças de nome ajudam a revelar diferentes momentos da formação de Timbé do Sul.

Fontes históricas apresentam referências a Corticeiro ou Corticeira, posteriormente Rocinha e, mais tarde, Timbé.

A denominação mais antiga é relacionada em estudos históricos ao Rodeio das Corticeiras, utilizado como ponto de parada nos antigos caminhos percorridos pelas tropas.

Rocinha aparece posteriormente identificando a comunidade e também a ligação rodoviária aberta a partir de Araranguá.

Mais tarde consolidou-se a denominação Timbé.

A origem desse nome, entretanto, possui diferentes interpretações.

Uma das versões encontradas no histórico municipal relaciona Timbé a uma planta denominada taimbé, que seria encontrada na região. Segundo essa interpretação, a forma como os colonizadores pronunciavam o nome teria resultado em “Timbé”.

Outra interpretação registrada em estudos sobre o patrimônio regional relaciona a denominação aos taimbés, termo associado às escarpas da Serra Geral.

As fontes disponíveis não permitem estabelecer definitivamente qual dessas interpretações explica a origem do nome. Por isso, as duas versões ajudam a compreender as diferentes memórias existentes sobre a denominação, sem que seja necessário apresentar uma delas como definitiva.

A criação do Distrito de Timbé

Enquanto a comunidade crescia, sua organização administrativa também começava a mudar.

Em 31 de dezembro de 1943, o Decreto-Lei Estadual nº 941 criou oficialmente o Distrito de Timbé, subordinado ao município de Araranguá.

O reconhecimento administrativo representava uma nova etapa para uma comunidade que havia se estruturado ao longo das décadas anteriores.

Poucos anos depois ocorreu outra mudança.

Em 30 de dezembro de 1948, pela Lei Estadual nº 247, o distrito de Timbé foi transferido de Araranguá para o município de Turvo.

Timbé permaneceria ligado administrativamente a Turvo durante quase duas décadas.

O caminho até a emancipação

A autonomia municipal chegou em 11 de maio de 1967, quando a Lei Estadual nº 1.059 elevou Timbé à categoria de município, com território desmembrado de Turvo.

A instalação ocorreu em 23 de setembro daquele mesmo ano.

Depois dos antigos caminhos pela Serra Geral, da chegada das famílias colonizadoras e de décadas de crescimento como comunidade e distrito, Timbé passava a contar com administração municipal própria.

Mas ainda faltava uma última mudança no nome.

Em 4 de dezembro de 1967, poucos meses depois da criação do município, a Lei Estadual nº 4.098 determinou que Timbé passasse a se chamar oficialmente Timbé do Sul.

Chegava-se, assim, à denominação atual depois de uma trajetória em que Corticeiro ou Corticeira, Rocinha e Timbé aparecem associados a diferentes períodos da história local.

Agricultura e desenvolvimento

A agricultura acompanhou Timbé do Sul desde os primeiros tempos da colonização e teve participação direta no desenvolvimento econômico da comunidade.

Arroz, fumo e feijão aparecem entre as culturas que ajudaram a movimentar as propriedades rurais e favoreceram o surgimento dos primeiros armazéns e estabelecimentos comerciais.

Ao longo das décadas, a atividade rural continuou ocupando espaço importante na economia local, com a presença de pequenas propriedades e diferentes formas de produção agrícola.

Essa relação com o campo ajuda a compreender também a própria ocupação do território. Muitas das famílias que chegaram à região buscavam terras para estabelecer propriedades e encontraram na agricultura o sustento e a possibilidade de construir uma nova comunidade.

A enxurrada de 1995 e uma marca na história recente

Um dos acontecimentos mais dolorosos da história recente de Timbé do Sul ocorreu em 23 de dezembro de 1995.

Chuvas intensas atingiram a região da Serra Geral, provocando deslizamentos e uma violenta enxurrada que alcançou especialmente a comunidade de Figueira Bordignon.

Casas, plantações e outras estruturas foram atingidas. Dezesseis pessoas perderam a vida.

O desastre, ocorrido dois dias antes do Natal, marcou profundamente as famílias e permaneceu na memória da comunidade. Em Figueira Bordignon, um memorial preserva os nomes das vítimas.

Estudos realizados posteriormente por pesquisadores da Universidade Federal de Santa Catarina também analisaram a dimensão do fenômeno que atingiu Timbé do Sul e municípios próximos naquele dezembro de 1995.

Três décadas depois, o episódio continua sendo lembrado como uma das páginas mais difíceis da história local.

Uma história marcada pelos caminhos e pela Serra Geral

A Serra Geral aparece de diferentes maneiras ao longo da trajetória de Timbé do Sul.

Primeiro, pelos caminhos utilizados por tropeiros para estabelecer a ligação entre o planalto e as áreas mais baixas.

Depois, pelas rotas que facilitaram a chegada de moradores e pela abertura de estradas que permitiram ampliar a circulação de pessoas e mercadorias.

Entre seus vales estabeleceram-se propriedades agrícolas, cresceram comunidades e se formou o município.

Mais recentemente, rios, cachoeiras, trilhas, áreas preservadas e a própria Serra Geral também passaram a integrar atividades relacionadas ao turismo de natureza, acrescentando novas possibilidades a uma economia historicamente ligada ao campo.

Da antiga circulação das tropas à chegada das famílias colonizadoras, da abertura das primeiras estradas à emancipação, Timbé do Sul foi construindo sua história em permanente relação com o território.

Os caminhos mudaram. Corticeira e Rocinha deram lugar a Timbé e, finalmente, a Timbé do Sul. Mas a presença da Serra Geral, da agricultura e das comunidades que se formaram aos seus pés permanece como parte importante da identidade do município.

Linha do tempo de Timbé do Sul

Final do século XIX — Registros históricos apontam a circulação de tropeiros por caminhos da Serra Geral e a existência do Rodeio das Corticeiras.

1915 — Segundo o IBGE, começa o loteamento das terras que abrangiam grande parte do atual município.

1917 — Terras são vendidas a imigrantes italianos provenientes de Nova Veneza.

1919 — Inicia-se a abertura da estrada de rodagem Araranguá–Rocinha.

1920 — Carlos Savi instala a primeira casa comercial e a primeira serraria.

1927 — São construídas a primeira escola e a primeira igreja.

31 de dezembro de 1943 — É criado o Distrito de Timbé, pertencente a Araranguá.

30 de dezembro de 1948 — O distrito é transferido para Turvo.

11 de maio de 1967 — Timbé é elevado à categoria de município, desmembrado de Turvo.

23 de setembro de 1967 — O município é oficialmente instalado.

4 de dezembro de 1967 — O município passa a denominar-se Timbé do Sul.

23 de dezembro de 1995 — Enxurrada atinge especialmente Figueira Bordignon e deixa 16 vítimas.

Fontes consultadas

  • IBGE — Histórico e Formação Administrativa de Timbé do Sul
    Consultar histórico do IBGE
  • UDESC — estudo sobre a formação do atual município de Timbé do Sul
    O trabalho aborda os antigos caminhos da Serra Geral, a circulação de tropeiros, o Rodeio das Corticeiras e o processo de ocupação do território, utilizando também pesquisas de Hilário Savi.
    Consultar estudo da UDESC
  • Patrimônio histórico edificado dos caminhos das tropas na região do Extremo Sul catarinense — Revista Memorare
    Pesquisa utilizada especialmente para a contextualização dos caminhos das tropas, do Rodeio da Corticeira, das antigas denominações e das interpretações sobre a origem do nome Timbé.
    Consultar artigo
  • UFSC — “Timbé do Sul–Jacinto Machado: Avaliação preliminar da extensão da catástrofe de 23-24/12/95”
    Trabalho de pesquisadores da Universidade Federal de Santa Catarina publicado na revista Geosul em 1997.
    Consultar estudo no Repositório da UFSC
  • Prefeitura de Timbé do Sul — “Trinta anos de um dia que repercute até hoje em Timbé do Sul e região”
    Material utilizado para a memória local da enxurrada de 1995, especialmente os impactos em Figueira Bordignon, as vítimas e o memorial existente na comunidade.
    Consultar matéria da Prefeitura de Timbé do Sul
  • Jornal Volta Grande — “Timbé do Sul: 46 anos de Emancipação”
    Fonte complementar sobre colonização, agricultura, primeiros estabelecimentos e formação do município.
    Consultar matéria do Jornal Volta Grande
  • Câmara Municipal de Timbé do Sul — Histórico do município
    Fonte institucional utilizada para informações sobre a colonização, primeiros moradores, formação econômica, origem do nome e organização administrativa do município.
    Câmara Municipal de Timbé do Sul

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